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Tocha olímpica da discórdia

No ano em que promove a Olimpíada, símbolo da paz entre os povos, a China reprime com violência as manifestações pela independência do Tibet.

Na China, tudo é grandioso. A maior população do planeta, apesar do rigoroso controle de natalidade. Um total de 1,314 bilhões de habitantes, até 2006. O terceiro maior território do mundo. São 9.572.909 km2 de área e perde apenas para a Rússia e o Canadá. A quarta maior economia, com um PIB (Produto Interno Bruto) de 9,8% em 2007. Uma média de crescimento em torno dos 10% nos últimos anos, colocando a China próximo de superar a Alemanha da terceira posição, segundo dados do Birô Nacional de Estatísticas da China. Esses dados certamente contribuíram na escolha de Pequim como sede dos Jogos Olímpicos, que acontecem de 8 a 24 de agosto de 2008.

Apesar dos superlativos, o país sofre com baixos índices de tolerância de seus líderes, que promovem sucessivas violações dos direitos humanos em diversas cidades do país, especialmente, na província tibetana, na tentativa de reprimir as manifestações pela independência do Tibet, ignorando apelos e reações contrárias por todo o planeta, inclusive de entidades como Jornalistas Sem Fronteiras, Anistia Internacional e da própria ONU.

Muitos ainda guardam na memória os eventos de 04 de junho de 1989 quando cerca de cem mil estudantes em protesto pacífico ocuparam a praça Tian’anmen, em Pequim. O governo chinês respondeu com violência no episódio que ficou conhecido como o Massacre da Praça da Paz Celestial. Milhares de civis morreram naquele dia, mas o número preciso de vítimas jamais será conhecido.

Veja também:

* Medalha de Dor – A situação atual dos conflitos entre Tibet e China
* Medalha de Sangue – Entenda o histórico dos acontecimentos
* Medalha de Lágrimas – Governo chinês viola direitos humanos
* Medalha Solidária – Mesmo no Brasil, solidários defendem o Tibet

Textos originalmentes veiculados em O Linguarudo.

Medalha de dor

Enquanto o governo chinês admite a morte de 19 pessoas durante as manifestações em Lhasa, o governo tibetano denuncia mais de 100 mortes.

Desde o início das manifestações no Tibet, o governo chinês procura manter os jornalistas afastados da região e, num ato extremo, censura a Internet para evitar a propagação de notícias e vídeos que revelam a violenta realidade na província tibetana. Em 06 de abril, sites como Google News e You Tube foram bloqueados pelo governo chinês. Ainda é possível acessar os sites em cafés na China e até no Tibet. Entretanto, ao tentar acessar conteúdo “proibido”, como, por exemplo, as palavras Free Tibet, o internauta chinês esbarra com o aviso “página não disponível”, enquanto os ocidentais podem abrir o site normalmente.

Os protestos começaram quando monges budistas foram presos em 10 de março último, após realizarem uma passeata para celebrar os 49 anos do levante tibetano contra o domínio chinês. A revolta, na época, fracassou e o líder espiritual dos tibetanos, o Dalai Lama, desde então no exílio, viaja pelo mundo para promover a causa da independência de sua nação.

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Medalha de sangue

A história do Tibet é marcada por conflitos, invasões, contradições e uma relação conturbada com a China nos seus dois mil anos de existência.

Desde que uma dinastia militar ocupou o vale de Yarlung em 127a C. fundamentou as bases para uma cultura diferenciada da nação mãe, a China. A própria interpretação histórica é motivo de controvérsia com pontos de vista diferenciados. Para a China, a província faz parte de seu território desde meados do século 13 e deverá continuar sob o comando de Pequim. Os tibetanos acreditam em outra visão. Eles afirmam que a região do Himalaia ficou independente durante vários séculos e que o domínio chinês nem sempre foi uma constante.

O século XX inicia com uma breve ocupação britânica do território tibetano em 1904. O 13º Dalai Lama, Tubten Gyatso, que havia iniciado um processo de modernização do Tibet, refugia-se na Mongólia para retornar cinco anos mais tarde, em 1909. No ano seguinte, é a vez das tropas chinesas ocuparem a capital tibetana, Lhasa. Sem encontrar o Dalai Lama, que alcançou a Índia, as tropas fracassaram. O general responsável pela operação militar retornou a China e foi executado pelo líder nacionalista Yin Chiang-heng. Com o retorno do Dalai Lama, os tibetanos se revoltam contra a ocupação chinesa e proclamam a independência do Tibet em 1913.

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Medalha de lágrimas

Enquanto o respeito aos direitos humanos na China seja um conceito distante, o país mantém uma cadeira no Conselho de Diretos Humanos da ONU.

Foi preciso um confronto na ONU, em 25/03, para forçar as autoridades chinesas a mudarem de atitude em relação ao Tibet e, pelo menos, aceitarem a entrada de jornalistas na região marcada pelos conflitos. “Ao restaurar a ordem, as autoridades chinesas tomaram medidas que violam as leis e padrões dos direitos humanos”, declarou a Anistia Internacional na ocasião.

Apesar da contínua repressão promovida pelas autoridades chinesas na região, o país mantém um dos 47 assentos rotativos no Conselho de Direitos Humanos, que há dois anos substitui a Comissão de Direitos Humanos.

Em agosto passado, dissidentes chineses chegaram a publicar uma carta aberta ao governo comunista, exigindo o fim da “sistemática negação dos direitos humanos”, a um ano do início dos Jogos Olímpicos de Pequim.

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Medalha solidária

A situação no Tibet chama a atenção de cidadãos preocupados com a questão humanitária como o estudante brasileiro Philippe Rodrigues.

“Debaixo dos caracóis dos teus cabelos, uma história pra contar, de um mundo tão distante”. Quando a letra da música foi composta por Caetano Veloso nos anos 70, Philippe Rodrigues nem havia nascido, mas a letra revela um pouco sobre ele. A cidade natal em Belo Horizonte e sem qualquer parentesco com estrangeiros, Philippe mantém uma comunidade virtual no Orkut, Liberdade ao Tibet, e organizou uma petição online pela independência tibetana. Apesar da ausência de laços sanguíneos, Philippe abraça a causa por uma questão de solidariedade.

Abelhudo – Philippe, você é a favor ou contra a independência do Tibet?

Sou a favor de qualquer independência aliada com responsabilidade. A questão do Tibet é muito séria, pois são um povo cuja cultura é muito diferente da do povo chinês e mesmo assim, a China impõe, de forma violenta, a sua cultura para eles. Por isso a independência Tibetana é tão importante, pois servirá de exemplo para qualquer outra questão mundial, nacional ou pessoal que envolva a liberdade, seja ela de culto, sexualidade, enfim, qualquer forma de pensamento sadio.

Abelhudo – Você seria capaz de boicotar produtos chineses por conta dos incidentes recentes ocorridos no Tibet?

Não acredito que essa seja uma alternativa. O boicote comercial seria importante para se fazer ouvir, mas acho que ignorar um país que cresce economicamente de forma colossal como a China seria burrice. Penso que o caminho a ser seguido é o caminho da razão e do equilíbrio. Isso é que deve ser passado para frente, incluindo o povo chinês, que se fecha para o mundo escondendo os seus problemas internos, mas se sente no direito de abrir os seus produtos para o mundo. O que falta, na verdade, é a consciência humanitária, tanto para quem resolve consumir os produtos criados por um país tirano tanto para quem age interferindo no livre arbítrio, que é protegido pelos Direitos Humanos.

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