Um Brasil Zen – Continuação

Nestablo, sabendo que todo artista tem um heróis ou anti-herói preferido, qual é o seu?

Meus heróis, sem sombra de dúvida, são meus pais! Graças a eles eu consegui apurar minha sensibilidade, item fundamental para quem quer se comunicar, e quadrinhos é isso: comunicação. Meus pais são minha fonte de inspiração para tudo que faço na vida. A coragem deles é divina! Tento passar para meu trabalho tudo que aprendi e aprendo com eles! Acho que os profissionais precisam mostrar mais destes exemplos em seus trabalhos.

Como já citamos que a estrada trilhada pelos quadrinhistas brasileiros é árdua, como foi seu percurso nessa estrada Nestablo, antes de aparição na internete?

Quando eu comecei a produzir quadrinhos profissionalmente, a Internet já não era uma jovem mocinha (risos). Os recursos para se colocar um trabalho na internet era limitado, não existiam blogs nem essa facilidade de hoje onde todos podem ter um site. Eu só comecei a explorar a internet e me aventurar mais dentro dela na década de 90, quando comecei mesmo a produzir minhas próprias histórias, ao mesmo tempo que tentava pensar numa forma de expor no mundo virtual. Mas não era mesmo tão fácil como é hoje! (risos). Então, posso dizer que minha vida profissional foi evoluindo paralelamente com a net. Um casamento feliz já que ela nos dá essa liberdade de poder mostrar o que podemos fazer na hora que quisermos.

Tatiana, nós sabemos que o mercado de histórias em quadrinhos no Brasil não é o que chamaríamos de ambiente natural das meninas, ou seja, do sexo feminino, principalmente quando relembramos o passado. Quando foi e como foi seu primeiro contato com esse tipo de arte e o mercado de HQs no Brasil?

É verdade, quando eu era guria nunca vi quadrinho feito por uma mulher. Aliás, ter acesso a vários autores já era bem raro, tinha o de sempre, pelo menos onde eu morava, tinha Maurício de Sousa, (eu gostava da Tina, do louco, e do Chico Bento), e tinha Disney e Marvel que eu não gostava muito. Na banca o espaço para os gibis era o canto do fundo. Eu preferia muito mais os livros. Em casa eu fazia historinhas do cotidiano da minha casa, ainda tenho esses desenhos…(risos). Com 8 anos entrei num ateliê de arte, aí conheci os artistas, reparei que haviam mais artistas homens que mulheres, isso tudo me marcou forte. Neste ateliê li revistas estrangeiras maravilhosas de arte, mas mesmo lá não tinha gibi. Bem mais tarde, quando ouvi pevez o disco da Janis com a capa do Crumb, foi que descobri outros desenhistas, pois fui pesquisar quem era o cara que desenhou a capa do disco, então um nome levou à outro e ai foi… Mas minha relação com o quadrinho sempre foi leve, nunca fui daquelas que respiram quadrinho dia e noite. Apesar de eu fazer histórias, eu lia mais livros que gibi. Meu interesse por animação é que me trouxe o quadrinho novamente. Eu gosto mais de histórias de cotidiano, e amo ficção científica. Hoje tem gente bacana por aí, eu gosto da Maitena, e quando li a Marjane Satrapi, foi perfeito, li Persépolis muito rápido de uma tacada só, simplesmente não dava pra parar de ler!

Com os atuais recursos da tecnologia, há uma gama de ótimos trabalhos de HQs bem colorizadas. Tatiana qual a sua opinião sobre a atual coloração das HQs, tanto nacionais, quanto estrangeiras? Cite alguma HQ de sua preferência.

Ainda não tenho como te responder essa pergunta pois estou sabendo pouco do que está rolando xagora, com certeza você deve estar muito mais atualizado que eu (risos), fico te devendo essa. Uma HQ de minha preferência… hum… as que citei antes, Maitena, Satrapi, e gosto do “O Sonhador” e “O edifício” de Will Eisner; gosto do visual do Crumb, apesar de ele ser muito pesado; gosto do visual da “Emily, a estranha”, apesar de ela ser soturna e negativa; e claro gosto do visual e da mensagem da Zona Zen, ou não estaria no barco com tanta garra; que me lembro agora, é isso.

Zen, observando suas aventuras no seu blog, percebemos que seu estilo de atuar, de aventurar-se na sociedade o faz ser comparado a outros grandes aventureiros, como o italiano Ken Parker, a argentina Mafalda, o Norte Americano Snoopy e sua turma, ou até mesmo o Norte Americano Surfista Prateado personagem da Marvel Comics, além de tantos outros aqui não citados. Como você se sente, ao tornar-se um referencial de assuntos contundentes da sociedade humana?

Não é fácil ser responsável por isso, sabe? Precisamos mostrar ao público a coisa certa de maneira sutil e incentivar boas ações, mesmo porque ninguém gosta de ser forçado a nada. Através de nossos acertos e “erros” intencionais, claro… (risos), esperamos que os leitores identifiquem-se de maneira positiva com a gente (personagem) e pensem a respeito. Não somos donos da verdade, apenas queremos participar apresentando nossas experiências.

Sabendo que toda criatura tem muito do seu criador, explica aí Zen como é a sua relação com Nestablo?

Eu diria que é uma constante negociação! (risos). Ele me criou tão independente que hoje eu consigo fazer as minhas coisas e pensar por mim mesmo. Acho que isso gera alguns conflitos, pois às vezes ele me vê em algumas situações e acha que eu tomarei um tipo de atitude, quando na verdade ele sabe que eu prefiro agir de outra forma. Sei que às vezes ele fica meio frustrado por criar finais bem arrojados para as histórias, mas depois ele derruba tudo e diz: “droga, o Zen não faria isso…” ele imagina os finais para ele e esquece de quem vai viver aquilo sou eu! (risos). Ele respeita muito minha personalidade, embora não concorde comigo muitas vezes. Se fosse qualquer outro autor, talvez me empurrasse suas idéias sem perguntar antes, mas o netão não faz isso…ainda bem! (risos). As pessoas falam muito de nossas semelhanças, mas não são tantas assim. Se conhecessem mais o Neto veriam que existem muitas diferenças. Mas isso é natural.

A produção de HQs é algo que consegue deliberar cargos e funções aos seus respectivos participantes. Qual a opinião de vocês três com relação aos estúdios de produção de HQs tanto no Brasil quanto no exterior?

Eu acho difícil falar sobre isso de maneira mais aprofundada, pois cada estúdio tem sua maneira de trabalhar. Existem os bons estúdios e os daquele outro tipo, né? Mas sobre uma coisa em especial eu posso falar, me deixa triste ver como alguns estúdios não colocam os nomes dos artistas nos créditos, mas sim o nome do estúdio. Acho isso uma falta de respeito e profissionalismo. Os créditos devem ser sagrados, o público deve saber os nomes dos profissionais envolvidos no trabalho sem contar o bem que faz ser reconhecido pelo trabalho bem feito. Não é certo privar a pessoa disso.

Geralmente não valorizam o artista tanto quanto deveriam, uma fábrica onde os artistas são tratados apenas como mais uma peça do processo, e isso não é verdade.

…Eu faço parte de outra parte do processo, mas concordo. Acho que esses estúdios só dão o devido crédito quando o profissional fez alguma coisa errada, daí vai escrito assim: ”erros de português nas páginas de 2 a 7, revisor: fulano de tal.” (risos).

Meus heróis, sem sombra de dúvida, são meus pais!

A diversidade de um país, gerando opiniões avassaladoras, numa arte que não tem medo de revelar a sociedade humana, numa entrevistasincera e franca.

Leia a parte final da entrevista Um Brasil Zen.

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