“Se tem gente com fome, dá de comer”

Já dizia Francisco Solano Trindade em 1944, em seu poema “Tem gente com fome”, posteriormente musicado pelo grupo Secos e Molhados. O recifense, nascido em 24 de julho de 1908, no bairro de São José, desde cedo lutou pela causa negra, através da arte, percorrendo os campos da poesia, do teatro, das artes plásticas e até do cinema. Sua máxima: “Pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte” Esse era o lema do “poeta negro”, que assim como Gandhi, conseguiu revolucionar sem usar da violência. Pelas palavras de sua filha Raquel, “Sua luta era feita com idéias”.

Sua poesia era notadamente social, voltada especialmente para a realidade do negro na época. Em seus versos, afirmava uma identidade rebelde do negro e enfatizava a cultura e os valores afro- brasileiros. Publicou cinco livros, o primeiro, “Poemas Negros”, em 1936.

Na sua luta contra o preconceito racial, Solano utilizou-se de outras ferramentas além da poesia. Em 1944, lançou a Orquestra Afro – Brasileira, do maestro Abigail Moura; no ano seguinte, fundou o Teatro Experimental do Negro; em 1950, fundou o Teatro Popular Brasileiro; em 1955, encenou a peça Orfeu da Conceição de Vinícius de Moraes; no mesmo ano criou o Brasiliana, grupo de dança brasileiro de sucesso internacional e na década de 60 transformou a cidade de Embu, região metropolitana de São Paulo, num grande centro cultural.

Não bastasse seu lado artístico ser completamente “engajado”, Solano também também se envolveu na política. Juntamente com o pintor Barros Mulato e o escritor Vicente Lima, fundou em 1936, a Frente Negra Pernambucana e o Centro Cultural Afro- Brasileiro, que tinha caráter político apesar do título de “centro cultural”. Ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, em 1944, fundou o Comitê Democrático Afro- Brasileiro.

Enfim, Solano Trindade dedicou sua vida a luta pelos direitos dos negros de uma forma única e marcante. Através de sua personalidade sensível aos problemas sociais, ele absorvia a triste condição do negro e transpirava poesia. Apesar de toda a sua luta em favor da igualdade racial, pois tinha consciência das desigualdades resultantes dos anos de escravidão, hoje ainda o negro sofre com o problema da discriminação. A diferença é que, desde a criação da Constituição de 1989, o racismo é considerado crime e desde então avanços nesse sentido são alcançados. A exemplo da criação de órgãos com o objetivo de criar e garantir políticas afirmativas como a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) ligada ao governo federal; Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, ligada ao Ministério da Educação, etc.

Neste ano de 2008, comemora-se o centenário de nascimento de Solano Trindade, que é hoje símbolo de orgulho e inspiração para o Movimento Negro, pois é uma daquelas personalidades que não morrem jamais. “Estou conservado no ritmo do meu povo/Me tornei cantiga determinadamente/E nunca terei tempo para morrer”

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2 Respostas para ““Se tem gente com fome, dá de comer”

  1. I’m looking for more material on commonalities between Gandhi and Solano Trinidade. Any suggestions?
    Please mail to : instituteone@gmail.com
    Anil Nauriya

  2. Hi Anil,
    I couldn’t find any material talking about exactly what you’ve asked me, but there are some good web sites about Solano and others about Gandhi, like these ones:
    http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=1017
    http://www.cedine.rj.gov.br/solano_trindade.asp
    http://www.comitepaz.org.br/Pensar_Gandhi.htm
    Maíra Borges.

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