Medalha de sangue

A história do Tibet é marcada por conflitos, invasões, contradições e uma relação conturbada com a China nos seus dois mil anos de existência.

Desde que uma dinastia militar ocupou o vale de Yarlung em 127a C. fundamentou as bases para uma cultura diferenciada da nação mãe, a China. A própria interpretação histórica é motivo de controvérsia com pontos de vista diferenciados. Para a China, a província faz parte de seu território desde meados do século 13 e deverá continuar sob o comando de Pequim. Os tibetanos acreditam em outra visão. Eles afirmam que a região do Himalaia ficou independente durante vários séculos e que o domínio chinês nem sempre foi uma constante.

O século XX inicia com uma breve ocupação britânica do território tibetano em 1904. O 13º Dalai Lama, Tubten Gyatso, que havia iniciado um processo de modernização do Tibet, refugia-se na Mongólia para retornar cinco anos mais tarde, em 1909. No ano seguinte, é a vez das tropas chinesas ocuparem a capital tibetana, Lhasa. Sem encontrar o Dalai Lama, que alcançou a Índia, as tropas fracassaram. O general responsável pela operação militar retornou a China e foi executado pelo líder nacionalista Yin Chiang-heng. Com o retorno do Dalai Lama, os tibetanos se revoltam contra a ocupação chinesa e proclamam a independência do Tibet em 1913.

O 14º Dalai Lama, descoberto em 1937, aos dois anos de idade, foi entronado em 1940, aos cinco. Em 1950, assumiu o poder temporal e religioso do Tibet. Um ano antes, a recém criada República Popular da China anuncia a pretensão de “libertar o Tibet dos invasores estrangeiros e reintegrá-lo à terra-mãe”, quando havia apenas seis estrangeiros no Tibet. Em 1950, as tropas comunistas começaram a ocupar a região e, em 23 de maio de 1951, o governo chinês impôs um “Acordo pela Libertação Pacífica do Tibet”, assinado sob pressão e forjado pelas autoridades chinesas.

Durante 10 anos, o Dalai Lama procurou uma solução pacífica. Entretanto, em 10 de março de 1959, milhares de pessoas protestaram contra a invasão chinesa, resultando num massacre de 82 mil tibetanos na capital do Tibet. Fugindo disfarçado de guarda, o Dalai Lama refugia-se na Índia onde recebe asilo político. Desde então, o Tibet luta pela independência.

O Tibet é uma região rica em minerais e serve de berço para os principais rios da Ásia Central. Oferece uma posição estratégica, para 25% dos mísseis intercontinentais da China, transferidos para lá, incluindo cerca de 70 mísseis nucleares e ainda serve como depósito de lixo nuclear. Para manter o controle, o governo chinês viola leis e tratados sobre os direitos humanos e mantém mais de mil presos políticos no Tibet, segundo dados da Anistia Internacional. O governo exilado na Índia denuncia a morte de cerca de 1,2 milhão de tibetanos e a destruição de 6.254 monastérios nos últimos 40 anos de ocupação.

Para os chineses, desde o século VII, quando o Rei Songtsan Gambo, governante do planalto tibetano naquela época, pediu ao imperador da dinastia Tang, a mão da princesa Wen Cheng em casamento, a China e o Tibet estreitaram suas relações e, desde o século XIII, o Tibet tornou-se parte “inalienável” da nação comunista através dos casamentos entre as famílias reais. No século XX, a fundação da República Popular da China em 1949 permitiu a reunificação do país.

Na visão do governo chinês, “com o implemento da Reforma Democrática, acabou a escravidão feudal sob teocracia e o sistema hierárquico feudal foi abolido, junto com as relações de dependência pessoal e todas as punições selvagens existentes no Tibet. Como resultado, um milhão de servos e escravos foram libertados. Tornaram-se donos do país e obtiveram direitos e liberdades do cidadão, especificados na Constituição e nas leis”.

“Os canais para o diálogo entre o governo chinês e o Dalai Lama estão sempre abertos”, afirmou Wen Jiabao, primeiro-ministro chinês, em Vientiane, capital do Laos, em março último. “Quando o Dalai Lama abandonar sua reclamação pela independência do Tibet, utilizar sua influência para deter a violência na região e reconhecer tanto o Tibet como Taiwan como partes inseparáveis da China, o governo chinês retomará o diálogo com ele”, disse Wen. O impasse entre os líderes continua e serve de combustível para mais manifestações e conflitos.


Livros sobre a China e o Tibet:
XIV Dalai Lama. Arte da Felicidade, A. Martins Fontes, 2003.
XIV Dalai Lama. Ética Para o Novo Milenio, Uma. GMT, 2006.
CESAR, Bel . Viagem Interior ao Tibet. Gaia Editora, 2001.
CHHAYA, Mayank . Dalai Lama. Campus , 2007.
FARRER-HALLS, Gil. Dalai Lama – Sua Vida, Seu Povo e Sua Visão. Madras, 2002.
ORTIZ, Airton. Pelos Caminhos do Tibet. Record, 2001.
RAMPA, T. Lobsang. Relatos de Viagens e Aventura Entre os Monges do Tibet. Nova Era, 1996.

Filmes sobre a China e o Tibet:
Adeus Minha Concubina (Ba Wang Bie Ji, CHI, 1993), de Kaige Chen
Na China de 1977 dois atores da Ópera de Pequim caminham por um estádio vazio, enquanto recordam como se conheceram e iniciaram suas carreiras, em 1925. Nesta época, na Academia Toda Sorte e Felicidade, os pequenos Douzi e Shitou se conhecem e ficam amigos, sendo que mais tarde integram juntos, a ópera Adeus, Minha Concubina.

Filhos do Tibet (Dreaming Lhasa, ING, 2005), de Ritu Sarin e Tenzing Sonam
A diretora Karma vai a Dharamsala rodar um filme sobre os prisioneiros políticos do Tibet. Lá entrevista Dhondup, um ex-monge que lhe confia um segredo.

Kundun (Idem, EUA, 1997), de Martin Scorsese
Biografia do 14º Dalai Lama, mostrando toda sua trajetória desde quando era um garoto de apenas 2 anos e foi identificado como a reencarnação do líder tibetano.

Nenhum a Menos (Yi Ge Dou Bu Neng Shao, CHI, 1999), de Zhang Yimou
Gao é professor da Escola Primária Shuiquan e precisa sair de licença para cuidar da mãe doente. A única pessoa que aceita substituir o professor é uma menina de 13 anos Wei Minzhi. Gao instrui Wei a não permitir que nenhum de seus alunos abandone o curso prometendo-lhe 10 yuans extras em seu pagamento. Wei faz de tudo para manter os alunos na escola, até que um garoto de 10 anos, é obrigado a partir para a cidade em busca de trabalho. Para trazê-lo de volta, Wei inicia um incasável jornada à procura de seu aluno na cidade grande.

Sete Anos no Tibet (Seven Years in Tibet, 1997), de Jean-Jacques Annaud
Após decidir escalar um dos picos mais altos do Himalaia, um alpinista austríaco corajoso e egoísta é preso pelos ingleses, durante à 2ª Guerra Mundial. O alpinista escapa de seu cativeiro e retoma sua jornada até encontrar o jovem Dalai Lama, que o auxilia a recobrar sua espiritualidade.

Tempo de Viver (Huozhe, CHI, 1994), de Zhang Yimou
Um retrato político da China dos anos 40 à década de 80, através de um casal que passa por diversos problemas e acontecimentos ao longo dos anos, e que acaba vendo seu padrão de vida cair.

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