Vozes da América ecoam em Olinda

Voluntárias, sacerdotisas, mães da pátria. Todas parteiras

“As parteiras são a fonte de preservação do feminino como se fossem sacerdotisas, designadas por Deus, detentoras de uma sabedoria, um dom”, explica a pesquisadora Bia Fioretti, publicitária paulistana, de 43 anos, presente no primeiro dia do evento promovido pelo Cais do Parto. A proposta de reunir parteiras do Brasil e do exterior foi consolidada com a presença de representantes de diversos estados brasileiros e outros países como México, Argentina, Peru, Colômbia e Canadá.

Um momento comovente ocorreu quando a presidente do Cais do Parto, Suely Carvalho, abriu o microfone para a platéia e cada participante teve a oportunidade de contribuir com seus depoimentos. Foi uma volta ao mundo sem sair do lugar. Origens, línguas e culturas diferentes relatando os mesmos dilemas na vida das parteiras. Um dos discursos mais belos e solidários foi o de Bia Fioretti, ao associar uma das primeiras profissões do mundo com a missão de uma sacerdotisa. “As parteiras abrem mão do próprio trabalho para atender outras mulheres”, explica.

Bia não é parteira. Ela própria é mãe de duas crianças que nasceram em hospitais, com métodos convencionais. Mas ao conhecer o trabalho das parteiras, a publicitária abriu mão de sua carreira, como se atendesse um chamado. Ela seguiu viagem com recursos próprios, num trabalho monumental de cadastrar parteiras pelo Brasil e pelo mundo. O resultado da pesquisa e dos ensaios fotográficos pode ser visto no site Mães da Pátria, organizado com a proposta de valorizar o trabalho dessas mulheres que sempre foram discriminadas pela sociedade médica e científica. A pesquisadora chegou a organizar uma exposição no Congresso Nacional, em 2006, devido a importância de seu trabalho.

“Na maioria dos países, as parteiras são formadas e a profissão é reconhecida, diferente da realidade no Brasil”, explica Bia com a propriedade de quem fez mais de 700 entrevistas em suas andanças por todo o continente americano na busca por elementos em comum na vida dessas mulheres. “O resultado é um retrato étnico. São muitas semelhanças”. Bia cita como exemplo o caso da primeira hippie norte-americana, Ina May Gaskin, parteira de Tennessee, Estados Unidos.

Uma frase dita por Ina foi a mesma de uma parteira brasileira, moradora do Espírito Santo, apesar das diferenças de idade, escolaridade e cultura. O que revela uma sintonia entre as mulheres dessa profissão. O mesmo grau de sensibilidade não existe entre as mulheres das grandes cidades. “A mulher urbana perdeu a conexão com o feminino. TPM e as conseqüências do pós-parto são problemas urbanos”, avalia a pesquisadora.

Solidária à causa das parteiras na busca pela regulamentação da profissão, Bia Fioretti destaca o trabalho de Suely Carvalho, parteira e presidente da Cais do Parto. “Suely age como uma costureira reunindo todas em sua rede. Ela respeita o trabalho das parteiras. Procura conscientizar e politizar para conseguir a união da categoria”, explica Bia. As ações de Suely e do Cais do Parto devem consolidar uma legislação capaz de resgatar a cidadania e o respeito da profissão em toda a sociedade. Um desafio e tanto. Mas, enquanto a questão continuar em aberto, as vozes das parteiras continuarão a ecoar.

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