Mirem-se no exemplo daquelas mulheres: parteiras

Diferente das “Mulheres de Atenas” retratadas na música, as parteiras buscam autonomia, liberdade, reconhecimento e difusão do parto humanizado

Apesar de parecer restrito ao universo feminino, a luta das parteiras começa a servir de exemplo também para os homens. O Cais do Parto trabalha para conscientizar ambos os lados levantando sua bandeira para todos, independente de gênero. Os grupos de casais grávidos foram criados com o objetivo de envolver também os parceiros, o que despertou a atenção do sociólogo Bruno Monteiro, 24 anos, morador de Olinda. Ele e sua companheira Sofia, de 22 anos, entraram no grupo há dois meses e descobriram a luta pela humanização do parto.

As reuniões dos casais grávidos servem para desconstruir muitos mitos. O primeiro é a visão de que parteira é coisa do passado ou restrita a lugares remotos. A realidade mostra que as parteiras fazem um trabalho importante hoje na sociedade. Utilizam métodos que aprendem da tradição oral, rezas e remédios homeopáticos, diferente das intervenções cirúrgicas convencionais. “Nem sempre o moderno é sinal de avanço, desenvolvimento e humanização”, explica Bruno. Grande parte das parteiras não sabe ler ou escrever. Entretanto, existem aquelas de classe média, instruídas e formadas.

Outro mito quebrado envolve o parto doloroso. As reuniões prévias servem para orientar a gestante e prepará-la para o momento. A dor é inevitável, mas as orientações ajudam a mulher a ter um relacionamento com a dor. “Muitas relatam partos prazerosos com as parteiras. Tivemos notícia de uma gestante que chegou até ao orgasmo durante o parto”, afirma o sociólogo. “Se o psicológico estiver preparado, vai doer até menos”.

Enquanto o parto convencional praticado nos hospitais é arriscado para a mulher, a cesária é um dos motivos de mortalidade entre mães e crianças. “Há o risco de infecção por bactérias na sala de parto. Além disso, a cesária é um parto com hora marcada e, muitas vezes, as crianças não estão prontas para nascer”, avalia Bruno. Ele destaca ainda a noção ecológica do trabalho. “Quanto menos intervenção no parto, mais humanização e mais liberdade. A mulher passa a ter autonomia para decidir sobre tudo e para conduzir o parto, num processo de empoderamento”, orienta.

O trabalho de Suely Carvalho como parteira, em quase 20 anos, nunca resultou em morte. Ela fundou o Cais do Parto há 17 anos e procura organizar as demais parteiras na luta para regulamentar a profissão. Bruno Monteiro resolveu abraçar a causa e realizar uma pesquisa sobre o trabalho de humanização do Cais do Parto para associar com a redução nos índices de mortalidade materna e neonatal. “O desafio da pesquisa é a dificuldade de registrar o trabalho das parteiras porque muitas não sabem ler ou escrever e quando perguntadas sobre a quantidade de partos realizados, respondem mil, dois mil. São respostas imprecisas”, explica o sociólogo.

A importância da pesquisa será reunir estatísticas com dados concretos sobre a contribuição das parteiras para a sociedade na redução dos índices de mortalidade. Apresentar os resultados da pesquisa ao Ministério da Saúde pode contribuir para a regulamentação da profissão das parteiras. “A professora Luzilá Gonçalves da UFPE fala que a própria gestão da medicina no passado considerava a mulher como um ser castrado, por não ter pênis”, lembra Bruno. “O trabalho do Cais procura tirar o preconceito contra a mulher em busca da valorização”, completa.

Entretanto, o trabalho das parteiras não é realizado apenas por mulheres. “Apesar de raros, existem homens como parteiros”, afirma a pesquisadora Bia Fioretti, que entrevistou mais de 700 parteiras em suas viagens pelo continente americano. De fato, no evento organizado pelo Cais do Parto, havia um argentino e um peruano, ambos parteiros.

O grande compositor da música popular brasileira, Chico Buarque, ao escrever, em 1976, a letra “Mulheres de Atenas”, junto com o criador da estética do Teatro do Oprimido, Augusto Boal, usava de ironia para encontrar paralelos entre as mulheres submissas, recatadas e oprimidas da sociedade ateniense, com as mulheres contemporâneas. No contexto das parteiras de hoje, a letra da música teria que retratar uma realidade diametralmente oposta e poderia ficar assim:

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres: parteiras
Lutam por seus direitos, organizadas parteiras.
Elas querem com seu trabalho,
pelo parto humanizado,
respeito apenas.
Não importa se são brasileiras,
mexicanas, colombianas,
são muito unidas,
Parteiras”

Texto reproduzido no Blog de Bruno Monteiro
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