Os minutos finais de abril

No episódio anterior, um grupo de jornalistas reunidos para uma conversa de bar em Recife segue a rotina de suas vidas sem saber que estão prestes a mergulhar num pesadelo inesperado capaz de colocar em risco o futuro de todos em Libertad Cero.

Leia aqui a introdução. Leia também o Episódio 01.


Episódio II – Os minutos finais de abril


Complexo Salgadinho – Olinda – 23:32

Sérgio Nabuco consegue finalmente uma cadeira para sentar depois de ficar um tempo em pé no ônibus que segue para Olinda. Exausto por enfrentar um dia difícil no trabalho, ele saboreia o alívio de conseguir uma cadeira vazia. Sérgio cobriu a coletiva do Ministro dos Esportes, no Centro de Convenções, pela manhã e conversou com a Governadora do Estado, Emília Marques, durante a inauguração de um hospital em Casa Amarela, horas depois. Apesar do rosto jovial, os cabelos brancos e os sinais de calvície de Sérgio denunciam o oposto. Os óculos de lentes retangulares, a caneta no bolso da camisa listrada e o calhamaço de papéis e jornais de baixo do braço, completam a imagem clássica do jornalista.

Ao olhar para o relógio, Sérgio sente um calafrio. Deveria ter ligado para a esposa, avisando que chegaria mais tarde. Ele imagina a cena entrando em casa e a esposa questionando sua displicência. E logo tira o celular do bolso. Depois de digitar alguns números, o celular indica não ter sinal para ligar. Agora, Sérgio relaxa. Pelo menos, ele pode jogar a culpa no aparelho por não ter ligado. Ao tentar sintonizar uma rádio pelo celular, ele também não consegue.
Droga! Nada está funcionando. Deve ser esse aparelho. Como vou encontrar uma assistência técnica no feriado? Só vou poder ver isso na segunda. Seguir o resto da viagem sem música é um saco. Pelo menos, a noite promete terminar tranqüila.


Rua do Bom Jesus – Recife Antigo – Recife – 23h43

Armando Freire e Virgínia Lins, sentados numa mesa de bar, rascunham os planos da cobertura do jornal Expresso Pernambucano, durante os Jogos Olímpicos no Brasil que terão início em alguns meses. Virgínia explica como pensa em realizar a cobertura, enquanto Armando toma nota em seu computador de mão.
Todos no jornal devem ser escalados para cobrir os jogos, principalmente aqueles realizados em Recife. Podemos enviar quatro jornalistas para as cidades mais importantes e contratar correspondentes para cobrir em outras cidades.

Virgínia assumiu a diretoria de redação do jornal após a morte de seu amigo e mentor, Rogério Gomes. Sempre foi fácil para ela cuidar da equipe em situações de rotina, porque todas às vezes que Rogério viajava, ela assumia a redação. Qualquer problema mais complicado bastava ligar para seu chefe. Ele tinha resposta para tudo. Virgínia agora enfrenta a cobertura das Olimpíadas e não terá a quem recorrer para encontrar respostas. Ela precisa correr riscos, delegar e assumir responsabilidades. Por confiar na equipe de redação e saber os potenciais e limitações de cada um, Virgínia deve definir as pessoas certas para os locais certos. Além do apoio de Armando que sempre traduz as necessidades jornalísticas para uma linguagem que possa ser compreendida pelos integrantes do Conselho do jornal. Aqueles que decidem sobre os gastos.
Acho que a editora de esportes deve assumir a coordenação de toda a cobertura do jornal para as Olimpíadas. Pânfila Carvalho fez um ótimo trabalho, quando o Brasil sediou a Copa do Mundo em 2014. Aquela denúncia apontando irregularidades na Vila dos Atletas explodiu as vendas do jornal. Ela ainda foi premiada pela reportagem.

Apesar de jornalista, Armando Freire trabalha como Diretor Financeiro do Expresso Pernambucano há mais de uma década. Perder a boa forma de outrora, rendeu comentários nos corredores da redação, dizendo que Armando relaxou após assumir o cargo. Ele tenta perder a barriga saliente por excesso de álcool. Sua vontade fica apenas na promessa. Mas ele não se importa. Qualquer coisa é motivo de festa e celebração. Armando diverte-se ao lembrar do caso da Vila dos Atletas, no Rio de Janeiro.
Como poderia esquecer? A reportagem dela provocou a renúncia de um dirigente da CBF. Nossa concorrência precisou correr atrás do prejuízo para cobrir o caso que rendeu matérias por mais de duas semanas. Acho uma ótima idéia, colocar Pânfila na coordenação das equipes. E qual a equipe escalada para viajar?

Virgínia sabe a resposta, mas não dá tempo de responder. Um estrondo repentino vindo do porto interrompe bruscamente a conversa. Os copos tremem sobre a mesa do bar. Armando procura algum sinal de fogos e só encontra um céu estrelado e sem lua.
Deve ser um torcedor de futebol maluco. Algum jogo importante deve está ocorrendo nesse exato momento. Só não entendo porque não ouvimos os gritos de gol.

Virgínia procura lembrar qual jogo poderia estar ocorrendo naquele momento.
Mas Armando, os times do Recife estão fora da cidade com partidas marcadas para o fim de semana. A Seleção Brasileira encerrou a temporada de amistosos antes das Olimpíadas. Que eu saiba, nenhum jogo importante ficou marcado para hoje.

Outro estrondo ainda mais forte sugere algo errado. Armando levanta-se da cadeira em alerta. Novamente, ele procura nos céus a resposta dos estrondos.
Então, tem algo estranho acontecendo. E parece vir do porto. Vamos verificar.


Praça Marco Zero – Recife Antigo – Recife – 23h51

A capitã Susane Borba conversa com subordinados enquanto observa Cássio Rodrigues à distância. Loira, alta, corpo malhado, ela chama atenção em qualquer ambiente, mesmo fardada e com cabelos presos. Depois de instruir os soldados, ela volta-se para Cássio.
O senhor Cássio Rodrigues tem uma reputação a zelar. Renomado jornalista do Expresso Pernambucano, vencedor do prêmio Cristina Tavares de 2017 e recebeu outra indicação dois anos depois. O senhor deve sentir-se orgulhoso.

Cássio, irritado, pensa em confrontar a capitã, mas reflete a situação e muda de idéia. Ele precisa se manter cauteloso com o que acontece ao redor. Diversas tropas militares se organizam na Praça Marco Zero numa operação sem precedentes e Cássio ainda não sabe o motivo. Por isso, ele precisa fazer a capitã revelar algo. Precisa mantê-la falando.
Vejo que você fez sua lição de casa. Agora, me deixe ir. Isso perdeu a graça.

Cássio nem consegue sair do lugar, detido por três soldados. Um deles soca o jornalista no rosto e na barriga, enquanto os outros seguram Cássio. Marcela grita assustada e tenta fazer alguma coisa. A capitã acena para os soldados e eles o soltam.
Eu não preciso de você, senhorita Marcela. Vocês três, escutem. Peguem um jipe. Quero que escoltem essa jovem até a casa dela. Vão imediatamente.
Sim senhora, capitã. – Responde um deles, enquanto os demais batem continência.

Os soldados arrastam Marcela, indiferentes aos gritos dela de protesto, chutes e socos no ar. Outro grupo de soldados aproxima-se depois do chamado da capitã Borba.
Então, senhor Cássio. Farei uma pergunta simples, direta e objetiva e espero receber uma resposta à altura. No começo do ano, o senhor fez uma reportagem apontando uma série de mentiras sobre as Forças Armadas, utilizando fontes internas não identificadas. Eu quero o nome de todos os traidores que o senhor consultou para fazer a reportagem.

Cássio baixa a cabeça e sorrir, num misto de satisfação e orgulho. Sua reportagem realmente incomodou a alta cúpula das Forças Armadas. Não existe prêmio melhor.
A senhora já ouviu falar no direito constitucional de proteção às fontes. Eu não sou obrigado a dar essa informação. Muito pelo contrário. Se quiser saber, investigue.

A capitã Borba lança um olhar congelante contra Cássio, como se ela estivesse disposta a tentar de tudo. Mas ela apenas desperta de seus devaneios quando outro militar chega para comunicar algo num sussurro em seu ouvido. A capitã volta-se para Cássio.
Olhe, eu não vou perder tempo com o senhor nessa discussão. Pois, tenho mais o que fazer. Mas nós vamos nos reencontrar. Até lá, o senhor será o nosso prisioneiro. Soldados! Levem o nosso prisioneiro para a base.

Enquanto dois soldados procuram levar o prisioneiro arrastado, Cássio agita seu corpo em todas as direções possíveis para ver se consegue escapar.
Você não pode me prender assim. Eu tenho os meus direitos e os conheço muito bem. Sua carreira está acabada, senhora capitã. Acabada!

Os soldados levam Cássio com dificuldade. Ele ainda esperneia e grita ameaças. A capitã Borba perdeu muito tempo interrogando ele. Outra operação mais importante precisa ser executada e as tropas estão de prontidão. Com alguns gestos dela para os subordinados, os soldados correm para fazer uma formação disciplinada.

A capitã aciona sua lanterna na direção da varanda de um dos prédios próximos. Um tiro de canhão avisa as tropas que chegou à hora de marchar. Armados e organizados em diversas formações, os soldados avançam sobre as ruas do Recife Antigo provocando pânico. Muitos correm, entram nos prédios e fecham portas e janelas.

A capitã lidera uma das tropas que marcham em direção a Rua do Bom Jesus. Um casal corre na direção deles. A capitã fica radiante de felicidade.
Senhores Armando Freire e Virgínia Lins, que ótimo encontra-los por aqui. Eu nem preciso procurar mais. Sejam bem vindos a uma nova era.


Beira Mar – Olinda – 23:56

Sérgio Nabuco chega ao seu apartamento e encontra a esposa assustada. Os telefones não pegam. Nenhum canal de televisão ou rádio consegue ser captado.
Tenha calma, Rosana. Vou ligar a Internet e logo teremos uma resposta.

Ele corre ao seu quarto, usado como escritório, e liga o computador. Os segundos em que o equipamento é acionado são angustiantes. Sérgio pede calma a esposa, mas ele mesmo não consegue manter a tranqüilidade. Seu instinto sabe que algo muito sério está acontecendo e ele pretende descobrir. Mas a conexão a Internet sinaliza que não existe.
Querido! Venha para a sala. Surgiram umas barras coloridas na televisão.

Sérgio volta, toma o controle das mãos de sua esposa e verifica vários canais. Sua busca é infrutífera. Apenas um canal funciona e mostra barras coloridas. Momentos depois, a bandeira nacional tremula em câmera lenta enquanto toca uma marcha militar antiga. Logo surge um oficial graduado repleto de medalhas. Um general, talvez – Pensa.
Saudações. Eu sou o General Alfredo Cavalcanti.

Agora Sérgio tem a resposta. Ele jamais poderia supor essa situação, mas é verdade.
É pior do que eu pensei. Sofremos um golpe militar.

Continua em 15 dias…

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