Caminhos dispersos

Leia aqui a introdução.

Episódio I

Rua do Bom Jesus – Recife Antigo – Recife – 23h15

Cássio Rodrigues levanta-se da mesa e acena para o garçom.
A conta, por favor.

O grupo de amigos interrompe a conversa e volta às atenções para Cássio. Reunidos num bar da Rua do Bom Jesus desde o fim do expediente, eles mantinham um debate acalorado sobre a organização das Olimpíadas no Brasil. Armando Freire não entende a decisão repentina de Cássio.
Que é isso, Amigo? Ainda é cedo. Além do mais, amanhã é feriado.
Mas eu preciso ir. Amanhã farei uma viagem. Alguém quer aproveitar a carona?

Marcela Lima logo se levanta da cadeira do lado oposto da mesa.
Vou querer uma carona, sim. Importa-se de me levar?
De forma alguma. Pode vir. Pessoal, bom feriadão pra vocês.

Cássio esboça um sorriso malicioso.

Marcela despede-se de todos. O garçom retorna com a conta para Cássio que deixa sua contribuição com Armando. Depois das despedidas, Cássio e Marcela seguem numa conversa animada monopolizando a atenção do grupo, enquanto se distanciam. O silêncio constrangedor é quebrado pelo compassado toque dos saltos de Marcela no asfalto de pedra. Um som que gradualmente perde a força com a distância. A rua, pouco movimentada pelo horário tardio, assume um clima fantasmagórico com suas casas históricas e árvores centenárias banhadas pela luz das lamparinas elétricas. Virgínia Lins irritada comenta aos amigos na mesa enquanto observa o casal distante.
Isso é papel de homem casado? Se fosse o meu marido…
Se fosse o seu marido, Cássio nem sentaria numa mesa de bar. Ele teria um GPS.

Completa, Armando, arrancando sorrisos dos demais.

Mas essa Marcela não entrou no jornal há duas semanas? Estagiária de Cidades?
Fabiano Melo tenta recordar e Cláudio Borba corrige.
Estagiária de Informática. Cássio não perde tempo. Mas ele está certo numa coisa, já é tarde. Quero ir embora também. Vamos Fabi, estou de moto e posso te levar.

Apesar dos protestos de Armando, é a vez de Sérgio Nabuco levantar-se da mesa.
Vamos, Armando. Você sabe que eu dependo de ônibus. Não posso sair muito tarde.

Cláudio e Fabiano caminham na direção oposta ao casal, enquanto Sérgio precisa entrar em outra rua. Eles acenam para os dois que ficam na mesa. Virgínia olha firme para Armando e antes que ele diga alguma coisa…
Nem pense em ir agora. Ainda não terminamos a discussão.

Praça Marco Zero – Recife Antigo – Recife – 23h28

Alguns casais são atraídos pelo clima relaxante da praça. Um assobio constante provocado pela forte brisa do mar serve de melodia improvisada. Raros veículos se atrevem a circular pela rua mais próxima.

Cássio e Marcela caminham abraçados até a orla, enquanto admiram o painel no piso da praça com a inscrição “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”. Na beira do mar, o casal senta-se num grande banco de pedra pouco iluminado, diante do Terminal Marítimo de Passageiros, agora fechado. Cássio e Marcela não precisam de palavras e trocam beijos cada vez mais intensos. Por um instante, a realidade da vida não importa mais.

Com 54 anos, Cássio cuida de sua boa forma com zelo. Não é bonito, mas mantém seu charme. Veste roupas elegantes e tinge de preto o cabelo impecavelmente cortado a moda antiga. Sua conversa sempre incrementada de aventuras interessantes vividas nos anos de prática no jornalismo envolveu Marcela.

A jovem estagiária de cabelos longos ondulados e olhos claros tem sede de aprender e entusiasmo pela profissão, diferente da maioria de seus colegas iniciantes. Morena de 28 anos, sua beleza não passa despercebida e desperta a cobiça de muitos. Mas o que chamou a atenção de Cássio ainda no bar foi a ousadia da jovem ao entregar um recado num guardanapo: “Hoje, quero ser sua reportagem”. Cássio sentiu-se nas nuvens.

Alguém chega por trás de Cássio e toca levemente em seu ombro. Ele se levanta num susto. De repente, um holofote acionado de um navio ancorado no porto ilumina a praça e encandeia a visão do casal. Cássio não consegue distinguir quem tocou em seu ombro, percebe apenas o uniforme militar.

Senhor Cássio Rodrigues?
O tom áspero e rude da pergunta não esconde uma voz feminina. Ao se acostumar com a claridade, Cássio observa a estranha movimentação de tropas militares na praça. Marcela assustada levanta-se e envolve os braços na cintura de Cássio que encara a militar.
Sim, sou eu. Como sabe o meu nome? O que significa tudo isso?

A jovem militar mantém o tom rude como se sentisse prazer com esse momento.
Senhor Cássio Rodrigues. Queira nos acompanhar, por favor. O senhor está preso!

Continua

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Uma resposta para “Caminhos dispersos

  1. Amei Roni, a historia tem todos os elementos que necessita para deixar o leitor, loucooooooooooooooooooooooooooo de curiosidade!

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